Ditto

Fala comigo, porque eu sinto minha bochecha formigar

E não tenho vontade de enfiar as unhas nas palmas das mãos

Não imagino todo tipo de acidente que poderia acontecer

E até tenho vontade de entender a diferença entre magenta e rosa

Fala comigo, porque eu sou que nem aquele pokémon

Que se transforma em você para te derrotar

Quem nunca sonhou em ser o herói de si mesmo?

ABC

Sabe quando o sorvete congela o cérebro

Só que dentro do peito?

E por um tempo só existe aquela sensação

De que tudo que você acreditou era tolo

Aquele segundo antes de o balanço te atirar no chão

Quase como uma frase de alfabetização

Afinal, o vovô só viu mesmo a uva?

Ou a comeu?

Abobrinha

Tenho dois demônios de estimação

Um se chama Zucchini

Metido a gourmet

Tenho dois demônios de estimação

O outro é Augusto

Um sujeito absolutamente normal

Tenho dois demônios de estimação

Mas não se assuste

De todos os habitantes

Esses dois são os mais inofensivos

Você sentiu?

Um choquinho daqueles de escada rolante.

Nossas vozes feito doce que gruda no céu da boca.

Olhos de ovo frito e tiro ao alvo.

Sensação de estar num balanço aos sete anos.

Ansiedade de passeio escolar para a serra.

Eu sem saber como terminar poemas.

Você sem conseguir sair deles.

Darwin

As palavras são mais fortes do que eu

E muito mais cruas do que prega a boa conduta

É que você mexeu com coisa antiga

Instinto que sobrou daquela primeira célula

E o que a minha mente leva numa boa

Meu corpo guarda que nem reflexo

Até descobrirem um jeito de tirar alguém dos poros

Eu sigo transpirando

Esperando meu corpo te expulsar

De onde você nunca esteve

Domingo

Estampido do escapamento da moto.

Caminhão de lixo com a comida de ontem.

Ambulâncias e sirenes diversas.

Risadas embriagadas.

Aquele silêncio, mais ou menos, de megalópole.

Um grito sussurrado fere a atmosfera abafada.

Atravessa prédios, clubes, restaurantes e shoppings.

Invade cochilos, banhos de sol, almoços em família e compras.

Por uma fração de segundos, cabeças viram;

E rostos felizes se franzem em interrogações;

Buscam aquele alívio que só se encontra na ponta do próprio nariz;

Narinas intactas.

Isso basta.

Risadas embriagadas.