Abobrinha

Tenho dois demônios de estimação

Um se chama Zucchini

Metido a gourmet

Tenho dois demônios de estimação

O outro é Augusto

Um sujeito absolutamente normal

Tenho dois demônios de estimação

Mas não se assuste

De todos os habitantes

Esses dois são os mais inofensivos

Você sentiu?

Um choquinho daqueles de escada rolante.

Nossas vozes feito doce que gruda no céu da boca.

Olhos de ovo frito e tiro ao alvo.

Sensação de estar num balanço aos sete anos.

Ansiedade de passeio escolar para a serra.

Eu sem saber como terminar poemas.

Você sem conseguir sair deles.

Darwin

As palavras são mais fortes do que eu

E muito mais cruas do que prega a boa conduta

É que você mexeu com coisa antiga

Instinto que sobrou daquela primeira célula

E o que a minha mente leva numa boa

Meu corpo guarda que nem reflexo

Até descobrirem um jeito de tirar alguém dos poros

Eu sigo transpirando

Esperando meu corpo te expulsar

De onde você nunca esteve

Domingo

Estampido do escapamento da moto.

Caminhão de lixo com a comida de ontem.

Ambulâncias e sirenes diversas.

Risadas embriagadas.

Aquele silêncio, mais ou menos, de megalópole.

Um grito sussurrado fere a atmosfera abafada.

Atravessa prédios, clubes, restaurantes e shoppings.

Invade cochilos, banhos de sol, almoços em família e compras.

Por uma fração de segundos, cabeças viram;

E rostos felizes se franzem em interrogações;

Buscam aquele alívio que só se encontra na ponta do próprio nariz;

Narinas intactas.

Isso basta.

Risadas embriagadas.

Coisas de quem tem muitos olhos

As laranjas iluminam rostos insones

(em frente às telas ou por causa delas)

As vermelhas direcionam os que vêm do céu

Mas também insistem em tentar interromper os apressados

(que as ignoram)

As verdes permitem a passagem dos que correm perigo

As azuis são daqueles que vivem em Hollywood

As brancas, que vêm e voltam, representam a arte

De madrugada, a cidade é ainda mais colorida

Basta desligar a luz e assistir

Carregando bóis

Vai para um lado para a moça passar. Bolsa nas costas, AI. Tudo bem, vai,  to acostumada. Ih pisei na pessoa do lado. Será que esse motorista acha que tá levando bói? Opa, eu quis dizer boi. Nossa, como fica esquisito quando eu tento emitir pequenas frases simpáticas para desconhecidos. A moça tá falando pra amiga que quer provar no tribunal que o ex-marido dela é sociopata. Vai levar uma psicóloga pra analisar as mentiras dele.“Tudo que eu quero é que ele passe o ano novo na prisão. Ia ser o melhor presente de natal”. Sacanagem, contar só um pedaço de uma história interessante dessas.  O que esse cara sentado no assento prioritário tá fazendo todo se remexendo? Tá incomodado que minha bolsa tá muito perto dele? Que folgado. Xiii… Caiu um fio de cabelo meu no ombro dele. Fudeu. E se a namorada dele ou namorado pensar besteira?  Imagina, estragar um relacionamento por causa de um ônibus lotado. Será que eu peço licença e tiro o fio dali? E se acontecer pior? Se ele sei lá resolver me clonar? Afinal ele tá meio que com meu DNA no ombro. Eita que esse motorista deve ter vários rolês marcados pra hoje à noite. É sexta, por isso tá correndo tanto. Ué o cara incomodado sentado no prioritário com meu fio de cabelo no ombro foi embora. Será que o fio foi com ele? Nem vi. E a moça do ex-marido sociopata? Não deve ser com ele que ela tá planejando deixar os filhos nas férias né? Fiquei confusa.  Ah, voltou pro assunto do tribunal, vai tentar chegar para uma outra mulher e dizer “ei, sua trouxa, olha o que eu consegui”. E tentar fazer ela ficar ao lado dela contra o sociopata. Nunca pensei que esse fosse um bom jeito de tentar unir forças em alguma batalha judicial “ei, sua trouxa”. Deve ser alguma gíria de pessoas que vão tentar provar que ex-marido é sociopata. Que barra. Desci.

A triste história da primeira bolacha

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A última bolacha do pacote percebeu que não era bem utilizada na expressão, porque era murcha e não tinha nem um terço do sabor da primeira bolacha do pacote.

Quem havia consolidado em ditado popular tamanha mentira?

E injustiça. Afinal, a melhor bolacha do pacote (a primeira) não era comida por todos, por ter fama de dar a quem dela se alimenta a maldição de roubar o namorado alheio.

Será que, na verdade, os termos “última bolacha do pacote” são uma adaptação de “os últimos serão os primeiros”? Algo que começou a ser falado com boas intenções e acabou com o sossego da primeira bolacha?

Difícil saber… Mais fácil voltar para a velha batalha entre biscoitos e bolachas.

Ê alimento para gostar de uma polêmica…