A história do poLvo

Era um polvo muito solitário no meio dos humanos. Como tinha oito braços, fazia tudo mais rápido e causava inveja. Além disso, como terminava tudo que havia para ser feito, não tinha como gastar seu solitário tempo. Ficava então grafitando paredes pela cidade “o polvo não está sozinho” “todo o poder ao polvo” para ver se alguma hora realmente acreditava nisso.

Até que um dia, um policial viu a cena e levou- o preso na frente de todo mundo. Assim que percebeu que o policial se aproximava, ele tentou apagar seus escritos, mas tudo que conseguiu foi tirar o l de cada um deles. Um moço que estava passando solidarizou-se com a situação e começou a filmar a ação truculenta contra o polvo. Dois dias depois, todos batiam em sua porta e queriam ser seus amigos. Pessoas com faixas chamavam pra que ele participasse de uma manifestação.  Virou líder, foi adorado. Nunca mais ficou só, ainda que estivesse. Sempre se lembravam dele e gritavam O POVO NUNCA ESTÁ SOZINHO. Ele não entendia o porquê de errarem o nome dele, mas achava que isso era pouco com todo o reconhecimento que estava ganhando. OITO É O NÚMERO DO TRABALHADOR, diziam todos por causa de seus oito braços. E ele se sentia feliz, porque finalmente estavam dando mérito a ele por tudo que ele construíra e consertara com seus oito braços. Agora ele era o que sempre quisera ser: símbolo de união, de luta e trabalho. Ainda que a maior luta de que ele tenha participado tenha sido contra a solidão.

Olimpíadas de ônibus são porta

Que olimpíada é essa que dura o ano inteiro e acontece todos os anos? Como que tantas pessoas ganham a medalha de ouro? Porque só uma medalha de ouro e muita notoriedade explicariam tanta gente ficar na frente da porta do ônibus quando não vai descer. Será que saiu em alguma revista que ficar longe da porta é coisa de coxinha?  Ou que ficar perto da porta leva para um universo paralelo com rios de chocolate?

Humildemente venho demonstrar minha ignorância quanto a isso e pedir a ajuda de vocês: me contem o segredo que só eu não sei.  Enquanto vocês pensam se me contam ou não, vou continuar explicando o quão maravilhada eu fico com essa situação, com exemplos.

Ex 1: Chega meu ponto, eu tento me locomover por um ônibus cheio de gente. Depois de passar umas 20 pessoas me sinto uma vitoriosa. Estou quase imitando o rocky, quando toca aquela musiquinha de ‘não foi dessa vez’ e eu, já na escada, sou interrompida por uma pessoa que, com as portas abertas, continua na escadinha com cara de paisagem. Perco o ponto e preciso caminhar uma quadra a mais. Não, não gosto de caminhar.

EX 2:  Chega meu ponto, estou feliz, o ônibus está vazio. “Dessa vez não terei problemas”, penso iludida. Estou a umas três pessoas de descer, mas como o ônibus está vazio não me preocupo “é óbvio que elas estão ali porque também vão descer”.Então, caminho despreocupada, quando percebo que aquelas pessoas não vão sair dali, nem para fora, nem para os lados e nem para cima ( acho que o controle de vídeo game de quem tá jogando com os personagens delas travou).  Me desespero, grito, eles acham graça “Nossa! Agora tem teatro no ônibus, que legal!” devem pensar eles. Perco o ponto e preciso caminhar uma quadra a mais. Não, ainda não gosto de caminhar.

Ao observar estes dois exemplos e fazer altas contas de probabilidade, percebo o real motivo pelo qual as pessoas fazem isso e fico aliviada. Ufa, eles só andaram conversando com a minha mãe. Ela, preocupada com o meu sedentarismo, pediu que fizessem isso para eu “mexer um pouco o corpo, essa menina não tem jeito”.

O que tenho a dizer depois de mais um texto muito útil para eu descobrir o motivo das coisas é: valeu mãe, não precisava ter contratado TANTA gente.

3×4= socorro.

Tirar uma foto 3×4 em tempos de selfie é como assistir alguém comendo chocolate, no máximo sentir o cheiro e depois ainda ganhar as calorias por osmose. O que eu quero dizer é que um recém-nascido tem mais controle sobre o que está acontecendo ao redor do que uma pessoa nesta situação.  Há aquela necessidade de todo um reposicionamento quase militar, que um corpo sedentário e com a postura de um camelo que nem o meu, nunca vai conseguir alcançar.

- Um pouco mais pra esquerda, por favor.

- Assim? – Digo eu, tendo a desconfortável percepção de que o banquinho em que estou sentada foi feito, no máximo, para alguém com meia nadega.

- Não, aí você já está de perfil!

Nesse momento, começo a rir pensando na nula possibilidade de algum dia eu vir a usar uma foto deste tipo como perfil do Facebook.  A fotógrafa, então, fica muito decepcionada com o meu comportamento, quase a ponto de chamar o meu pai.

- Você tem que ficar séria, mas sorrir de leve, levantar o queixo, mas não muito, ajustar a camiseta, olhar reto, sem piscar. – Pensei em coisas sérias que eu não entendo, do tipo superávits, eles pareciam mais fáceis naquele momento.

Depois de milésimos de segundos e seis disparos, sem nenhum aviso prévio, como em um treinamento inesperado de colete à prova de balas (sim, estou falando de Kickass 2), parecia ter acabado o book do terror.  

- Pronto, vem escolher.

Mas já? Eu nem tinha feito tudo aquilo que ela pediu, nem ganhei um pirulito, ninguém arrumou meu cabelo.  Não tinha uma prova de recuperação para fotos 3×4?

Na primeira foto eu estava estrábica, na segunda olhando pra cima, na terceira de olhos fechados rindo, na quarta piscando, na quinta assustada e a sexta era melhor, porque eu só estava parecendo o Frankstein.

- Eu quero a sexta.

- 1, 2, 3, 4, 5, 6? – Ela perguntou, como uma professora que tentava ensinar números complexos a um aluno da segunda série.

- É – Respondi, recontando na minha cabeça pateticamente do um ao seis.

- Essa aqui??? – Apontou como se fizesse referências às minhas olheiras.

- Er, acho que sim?

Peguei as fotos, paguei e fui embora. Ela gritou lá de dentro:

- Se precisar de mais cópias tem outras guardadas aqui no computador.

Eu corri.